Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt
Uma homenagem pressupõe a gente saber para quem e por quê.
Para que, nós sabemos: trata-se do professor Doutor Adolpho Carlos Françoso Queiroz, como se encontra em sua carteira de identidade, graduado em 1980, pela Universidade Metodista de Piracicaba; com Mestrado em 1992, pela Universidade de Brasília, e Doutorado em 198, pela Universidade Metodista de São Paulo, onde leciona desde aquele mesmo ano.
Quanto ao por quê, eu poderia, simplificadamente, dizer: porque ele é amigo de todos nós, e nós, que temos um grande carinho por ele, queremo-lo homenagear. Academicamente, contudo, isso não basta. Recordemos, pois, que, em sua trajetória, que ele mesmo indica como tendo sido os campos da docência, da investigação e da mídia , a que eu acrescentaria o do assessoramento político, ele produziu uma quantidade significativa de reflexões, de conhecimento e de aquisições nos campos por ele escolhidos para a sua atividade, como é raro se encontrar em nosso país.
Poder-se-ia, por exemplo, consultar seu Currículo Lattes. Foi, aliás, um caminho que percorri. Ali vai se verificar toda a sua produção acadêmica. Mais que isso, o conjunto de alunos que, da Graduação ao Doutorado, fizeram seu aprendizado junto às suas palavras, representado através de monografias, dissertações de mestrado, teses de doutorado. Mas o que me chamou mais a atenção foi o exame de sua bibliografia. De 1995 para cá, encontrei dois livros propriamente de autoria de Adolpho Queiroz: A TV de papel e, mais recentemente, Marketing político brasileiro: Ensino, pesquisa e mídia . Isso não significa, contudo, que ele tenha produzido pouco. No caso deste último livro, ele mesmo diz que aquela obra “sintetiza o esforço de anos de trabalho, em conjunto com colegas, alunos e ex-alunos” (p. 9). É nesta pequena informação aparentemente passageira que se encontra, contudo, o principal motivo de uma homenagem mais do que merecida a ele. Quando combinamos essa afirmação: “em conjunto com colegas, alunos e ex-alunos” com os dados contidos no seu Currículo Lattes, encontramos dezenas de obras de que ele participa com algum artigo ou estudo mas das quais ele é, sobretudo, o animador e o coordenador, provavelmente o idealizador. E então se revela, como uma iluminação, o que tem sido, ao longo dos anos, a sua grande atividade: a formação de jovens estudantes, a disseminação de conhecimento, a animação da atividade intelectual.
Por certo, o pesquisador Adolpho Queiroz tem, ele mesmo, importantes contribuições já dadas à academia, das quais a menor na será certamente, o sempre ter defendido o nível profissional do marketing político e a importância de seu ensino e discussão nos bancos acadêmicos. Mas o professor Adolpho Queiroz fez mais que isso: ele se preocupou em atuar em atividades diferentes, desde a assessoria a administrações públicas e a eventuais campanhas políticas, trazendo sempre sua reflexão teórica e ética para a experiência prática, devolvendo-a, contudo, mais tarde, para a sala de aula onde, então, sim, ele de fato exerce toda a sua bem-querença.
Nesta grata tarefa de escrever sobre Adolpho Queiroz, fiz, a partir do Currículo Lattes, um recorte em relação a alguns de seus trabalhos mais recentes. Quero, seguindo provavelmente sua própria perspectiva, sintetiza-los em algumas linhas fundamentais. A primeira delas é a experiência mais antiga, no âmbito da Universidade Metodista, desde 1995, de discussões e assessoria num projeto chamado “Imprensa e eleições em Piracicaba”, em que seus alunos foram incentivados a participar de campanhas eleitorais, organizando e criando todas as fases dos diferentes momentos de campanhas eleitorais, num procedimento recomendável em que se alia a teoria à prática, e de cuja experiência ele guarda, ainda, precioso acervo: “Além destes trabalhos de pesquisa aplicada, o acervo do projeto também inclui fitas de vídeo e áudio de campanhas municipais realizadas”, revela ele . Alia-se, assim, teoria e prática, numa experiência por vezes raras em nossa universidade, levando os alunos a aprenderem na prática e a refletirem teoricamente sobre a experiência vivida. Outro momento importantíssimo, e esse com maiores desdobramentos, ainda, é o projeto que, desde 1997 ele realiza no Programa de Pós-Graduação, intitulado “Memória das campanhas presidenciais” . Retomando referenciais teóricos como os livros de Serge Tchakoutine e Jean-Maria Domenach, a que acrescenta o pequenino mas obrigatório livro de Nelson Jahr Garcia, Adolpho Queiroz delimita com clareza o espaço de suas preocupações. Destacando que, no Brasil, o marketing político ganhou enorme desenvolvimento ao longo e após o processo chamado de abertura política posterior à ditadura de 1964, ou seja, a partir de 1980 , ele vem desenvolvendo, ao longo dos anos, sempre promovendo a seu lado alunos e pesquisadores, belos e exemplares estudos sobre o uso dos slogans, a eventual presença de resquícios fascistas em nossa publicidade; a cobertura do chamado Pittagate, assim como a da morte do ex-governador paulista Mário Covas ou o desdobramento de denúncias em torno de Roseana Sarney; a introdução de novos procedimentos a partir da campanha eleitoral presidencial de 2002; a invasão do Iraque a cobertura pela mídia mas, mais que isso, o uso da mídia pelas forças em litígio; o programa social Fome Zero do Governo Lula; a importância da televisão para as campanhas políticas;a introdução da rede mundial de computadores; o papel da imprensa e da radiofonia do interior do país em campanhas eleitorais, etc.
O mais importante disso tudo, porém, para mim, é o projeto em si a respeito das campanhas presidenciais. Lendo-se os relatos que ele tem produzido, verifica-se que se vai constituindo, pouco a pouco, um acervo admirável e eu diria fundamental sobre a memória das campanhas presidenciais, e isso desde a primeira eleição democrática, a de Prudente de Morais, até as campanhas mais recentes que envolveram o antigo líder metalúrgico e sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. Ora, para um país como o nosso, em que a memória é, quase sempre a primeira vítima do fascínio que sentimos pela novidade, trata-se de um projeto fundamental, tanto do ponto de vista profissional, pois pode servir de exercício de aprendizagem e reflexão para os responsáveis pelas atuais campanhas; quanto nos ajuda a entender a própria identidade brasileira, traduzida através de um de seus momentos-chave da política, que é o período eleitoral. Com mais de 600 cursos sobre Propaganda e Publicidade em funcionamento no Brasil , não deve escapar a nossa atenção que, hoje, atividades como o marketing político, a publicidade em geral e a assessoria política ganharam repercussões imensas na sociedade brasileira. Deve-se acrescentar, como reflete Adolho Queiroz que, para isso, vêm contribuindo as diferentes iniciativas acadêmicas, com a constituição de entidades como a Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP), desde 1991, a formação da COMPOLÍTICA – Associação Nacional dos Pesquisadores em Comunicação e Política (2006), além de espaços existentes para discussões no âmbito da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e a COMPÓS - Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Comunicação. O próprio Adolpho Queiroz colabora diretamente nesta legitimação, na medida em que, desde o início da década de 2000, promove o POLITICOM – Conferência Brasileira sobre Marketing Político, hoje já com seis diferentes edições.
Se vale a observação de Gaudêncio Torquato segundo a qual o primeiro documento ocidental que se teria a respeito de alguma orientação sobre o que hoje constitui, latu senso o marketing eleitoral, seria uma carta de Quinto Túlio Cícero (64 a.C.) enviada a seu irmão, o tribuno romano imperial Cícero, devemos reconhecer que esta é uma das preocupações mais constantes de toda e qualquer sociedade: ela é importante, sobretudo, porque entre política e comunicação temos uma matéria-prima comum, que é o imaginário. A comunicação – diálogo entre partes antagônicas para que venham a atingir consensos – é o meio através do qual o marketing político se desenvolve, na disputa que faz, socialmente falando, junto a diferentes comunidades, em torno das imagens circulantes sobre determina da realidade, através de diferentes procedimentos, um dos quais os símbolos. Ora, esta disputa é essencialmente democrática, porque, fora dele, caímos nas sociedades hierarquizadas e policialescas, em que o poder da força, pura e simplesmente, define o que pode ou não, o que deve ou não, ser pensado ou circular na sociedade. Lembremos inclusive que, mesmo em sociedades ditatoriais, como foram as experiências do nazi-fascismo ou da União Soviética, ou, perto de nós, o Estado Novo getulesco ou a ditadura pós-1964, nem mesmo estes regimes hierarquizados deixaram de buscar certa legitimação através de campanhas de marketing que buscaram desenvolver e incutir junto à sociedade imagens favoráveis ao regime.
Para Adolpho Queiroz, assim, o estudo sobre o marketing político não é mera curiosidade ou voluntarismo, mas significa, em última instância, sua própria contribuição à democratização brasileira, na medida em que não apenas dissemina princípios e conceitos, mas estuda-os e mesmo desenvolve-os, praticamente, nos diferentes momentos que vão do exercício da cátedra ao assessoramento de campanhas eleitorais.
Isso não significa, necessariamente, um fechamento a outras questões vinculadas à comunicação social. É o caso de uma área próxima ao marketing, a publicidade. São importantes pesquisas de Adolpho Queiroz aquelas realizadas sobre o pioneiro da publicidade em São Paulo (e no Brasil), João Castaldi e sua primeira agência de publicidade, a Eclética ; assim como uma aparentemente destituída de importância observação sobre a presença e a influência da maçonaria na história da imprensa brasileira ; as reflexões sobre as atuais campanhas eleitorais – sobretudo presidenciais – em face de campanhas anteriores brasileiras ou da prática histórica de reis como Luiz XIV, a respeito da promoção de sua própria imagem, com isso buscando não só a historicização quanto a legitimidade de sua presença no poder ; ou o levantamento da propaganda na China, país que cada vez mais se apresenta diante de nossa atenção .
Muito mais se poderia referir. Eu paro por aqui, mas quero reenfatizar o que procurei trazer a este despretencioso documento: Adolpho Queiroz é um pesquisador meticuloso, curioso e disciplinado; Adolpho Queiroz é um profissional vencedor; Adolpho Queiroz é um professor que já dispõe, hoje, de uma espécie de árvore genealógica através de alunos e ex-alunos. Mas o que mais valoriza a figura de Adolpho de Queiroz, ao longo de todos esses anos, é que ele entendeu, como poucos, que o trabalho intelectual não é apenas ou sobretudo uma atividade isolada e individualista. Pelo contrário: se é verdade que, talvez aquele momento de idealizar um projeto nasça de um recolhimento necessário, em que o sujeito mergulha dentro de si mesmo, não menos verdade é que as grandes idéias nascem justamente do convívio com os pares, do pensamento expresso e repartido em voz alta com os colegas, e que, sobretudo a animação cultural, o estímulo a projetos dos alunos e a disposição de participação em trabalhos de outros colegas é o que, de fato, anima a vida cultural. E isso, Adolpho Queiroz tem sabido realizar como poucos em sua vida.
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