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Influências do fascismo na propaganda política do Brasil
Adolpho Queiroz 
 
Este texto procura recuperar parcelas das ações desenvolvidas ao longo da história brasileira, no campo da comunicação política eleitoral e governamental, bem como evidenciar semelhanças e/ou coincidências entre as ações de propaganda política desenvolvidas por Benito Mussolini, na Itália, entre os anos 30 / 40 e os vários governos brasileiros que o precederam e sucederam.
 
Mussolini pode ter-se inspirado no presidente Campos Salles, que governou o Brasil no princípio do século XX, para, por exemplo, oferecer dinheiro aos jornais e revistas italianos para se alinharem às suas idéias. O ex-ministro da Fazenda e depois Presidente da República, Campos Salles, iniciou a prática perversa no Brasil de oferecer dinheiro, facilitar empréstimos e empregar jornalistas, para manter a imprensa sob sua tutela. Já Mussolini, em 1922, ampliou de 50.000 liras para 438.000 liras em 1932, os recursos disponíveis no orçamento do país para subsidiar jornais e jornalistas, numa rubrica que ele chamou de “fundo de répteis”.
 
Outra ação que teve repercussões no Brasil foi o pedido do governante italiano para que as mulheres do seu país doassem suas alianças de ouro de casamento para ações do seu governo. Esta ação repetiu-se no Brasil por duas vezes, em 1932, quando São Paulo rebelou-se contra o governo de Getulio Vargas e criou a campanha “doe ouro para o bem de São Paulo”, para levantar fundos para a revolução constitucionalista e depois, em 1964, quando da revolução militar, com a campanha “doe ouro para o bem do Brasil”.
 
As camisas pretas, invariavelmente acompanhadas de porretes, que os grupos fascistas usavam na Itália, serviu de parâmetro para a criação, no Brasil, dos camisas verdes, integrantes do Partido Integralista, em 1930,  “cujo lema era : Deus, Pátria e Família. Além do uniforme, camisa verde, o partido possuía simbologia muito rica. A saudação entre os membros era feita com a mão estendida para o alto, gesto complementado pela palavra indígena anauê.” (PARENTE, 1999, pg. 21)
 
O período de governo fascista foi inspirador de várias campanhas  no meio rural ,como a “Batalha dos Grãos”, para fins propagandísticos, e ,mais do que isso, assegurar o controle político nos meios camponeses. Em princípio, esta ação poderia ter sido parodiada no Brasil, no período da ditadura militar pelo ex-presidente João Figueiredo, que chamou para si a responsabilidade das ações no campo da produção agrícola, com o slogan “Plante que o João garante!”. É deste período igualmente na Itália, a campanha “Não tire o pão da boca do seu filho. Consuma apenas produtos italianos”, incitando o povo italiano a não consumir produtos importados e, com isso, fazer com que os produtos da Itália suprissem livremente o comércio, incrementando os empregos e os impostos, numa atitude de pouco diálogo comercial com países circunvizinhos. No Brasil, ações parecidas deram ao maior produto de exportação, o café, o apelido de “café do Brasil”, como marca registrada de um produto de qualidade, antes que ele perdesse em mercado, qualidade e força para países como a Colômbia, por exemplo.
 
Foi igualmente no período de Mussolini que se criou o primeiro organismo formal para a administração dos recursos financeiros destinados a propaganda. A criação do Ufficio Stampa Del Capo Del Governo, em 1923 iniciou a organização de divulgação do governo que previa, além da implementação de recursos em jornais, emissoras de rádio, produção de filmes, eventos, espetáculos, artes, a homogeneização do discurso, a ponto de os responsáveis pela comunicação nas prefeituras municipais da Itália, serem designados e nomeados por este organismo. No Brasil, Getulio Vargas criou  em 27 de setembro de 1939, o D.I.P., Departamento de Imprensa e Propaganda, com o intuito de garantir a intervenção do Estado brasileiro junto aos órgãos de comunicação.Mais tarde, a revolução militar de 64 criaria a SECOM, Secretaria de Comunicação, com objetivos similares de censurar os veículos descomprometidos com o regime e promover as benesses necessárias para que os veículos engajados pudessem ter créditos, empréstimos e anúncios para suas empresas de comunicação.
 
Outra faceta do regime fascista foi incrementar o turismo, fazendo com que os cidadãos do seu país conhecessem, gratuitamente, pontos turísticos importantes da Itália, museus, centros culturais e recreativos, para com isso, aumentar a auto-estima da população. Ainda hoje no Brasil, escolares, sindicalistas e desassistidos conseguem em programas similares, conhecer  centros culturais de referência às expensas do Estado.
 
Benito Mussolini, na Copa do Mundo de 1934, realizada – e vencida ! – na Itália, cuidou pessoalmente para que jogadores estrangeiros fossem naturalizados e sob o slogan “vencer ou morrer!”, disputar uma das Copas  mais conturbadas da história. No Brasil do século XX, em 1970, o General Presidente Emilio Garrastazu Médici, utilizou-se igualmente do espaço político oferecido por uma Copa do Mundo, abriu ao país a transmissão de televisão em cores para este evento enquanto simultaneamente fazia descer aos porões da ditadura, inúmeros oposicionistas. Vencida a Copa pelo Brasil, Médici posou ao lado dos jogadores como autentico esportista, enquanto muitos morriam vítimas dos desmandos do regime militar.
 
OBJETIVOS DA PROPAGANDA FASCISTA
 
Num grande seminário que promoveu, em 1977, em Vincenne, a historiadora Maria Antonieta Macciocchi, inventariou  objetivos perseguidos  pela propaganda fascista. Reproduzido no Brasil nos “Cadernos de Opinião” daquela época, as idéias gerais contidas nos dois volumes da obra  intitulada “Elementos para uma análise do fascismo”, mostra  que “o fascismo lançou-se infatigavelmente à conquista  de três objetivos fundamentais: a obsessão racista, as mulheres e a questão dos intelectuais e das artes” (SOLLERS, 1977, pg.112), mostrando mais adiante que  o racismo era o mais forte elemento que movia a propaganda fascista no período, vindo a seguir as mulheres, para quem a propaganda no período “mobilizou todos os meios possíveis para enquadrá-las numa dança sistemática, contando para isso com seus impulsos mais arcaicos ,com efeito, as mulheres representariam um perigo revolucionário se fossem capazes de tomar consciência da derrocada da ideologia religiosa. Para as mulheres, por conseguinte seria esta a nova religião : o culto do chefe e dos heróis mortos, maternidade “em cadeia”.
 
A dança histérica de  Mussolini e Hitler, por exemplo, em volta da população feminina, é um dos mais espantosos capítulos desse cenário demente. Mortes – nascimentos, mortes – nascimentos, é preciso embrutecer inteiramente a todos os povos nessa equação acelerada. Aí está “a multidão viva e recolhida das mães e das viúvas dos desaparecidos” mergulhada hipnoticamente, no seu masoquismo de sacrifício, no seu gozo de renúncia. O fascismo – reivindicação viril e maternal, sangue e solo, pureza e asseio, verdadeiro homem e  verdadeira mulher, se apresenta, então como encarnação fanática de uma normalidade, que vive de uma  negação permanente de sexualidade. A série raça – família – partido – Estado é essa imensa máquina que esmaga o corpo por conta da mãe primordial, que funda uma fraternidade irrisória.” ( SOLLERS, 1977, pg. 112)

Para difundir estes objetivos, Mussolini utilizou-se de extensa rede de jornais e revistas, do rádio, do cinema e especialmente das artes plásticas. Ele próprio um jornalista e agitador político antes de assumir cargos políticos, transformou jornais como Il popolo d´Itália, Il Corriere Padano, Cremona Nuova, Impero, Il Corrieri italiano, entre outros, em parceiros e aliados, ao mesmo tempo em que apenas três grandes jornais procuravam, em 1925, manter-se independentes das suas investidas : Il Mondo, La Stampa e Corriere della Sera.  Em 5 de outubro de 1924 criou a Unione Radiofônica Italiana, URI, que passou a difundir seus discursos e ações políticas. Em 1925 criou a LUCE, L´Unione Cinematográfica Educativa, que “ foi dividida em oito sessões, encarregadas, cada uma delas dos projetos de elaboração de filmes e documentários em distintos setores como a turismo, a agricultura, indústria, religião, cultura, assuntos militares, assistência social e assuntos exteriores. ( PIZARROSO QUINTERO, 1990, pg. 322). E participou nos sets de filmagens de Scipião, o Africano, em 1937, de Carmine Gallone, considerado um dos clássicos produzidos durante o  regime fascista.
 
Para Heloisa Mattos, “a propaganda política observada no momento histórico entre dois conflitos mundiais teve como fator favorável a sua eficácia, além do clima propício à criação de um sentido de unidade nacional contra o inimigo externo,  própria das circunstâncias de guerra e conflito, a possibilidade de utilizar os meios de comunicação, especialmente o rádio, a imprensa, o cinema e as publicações como mediadores desses valores e sentimentos” ( MATTOS, 1989, pg. 7)
 Nesse sentido, a sociedade daquele período, na Itália, “passa a ser entendida pelos teóricos como conseqüência da industrialização progressiva, da revolução dos meios de transporte e do comércio e da difusão de valores abstratos de igualdade. Esses processos teriam provocado a perda da exclusividade por parte das elites que se vêem expostas à massa. O enfraquecimento dos laços tradicionais : família, comunidade, associações de ofício, religião, entre outros, contribuíram por seu lado, para afrouxar o tecido conectivo da sociedade e para preparar as condições que conduzem ao isolamento e a alienação das massas” (WOLF, 1987, pg.19)
 
As táticas da propaganda fascistas estavam baseadas pois nos seguintes princípios: a criação de um  Estado Corporativo , construída sobre nacionalismos extremos,  base imperialista  com a necessidade de conquistar mais espaços de ação, preponderância em um culto à raça – baseado no desprezo às demais como negros, judeus, ciganos e muçulmanos - , afastamento dos princípios da igreja católica, presença forte do líder/caudilho e, como ações no campo da propaganda, tínhamos a manipulação das massas, demonstrações de força e de poder, aplicação do terror e domínio da dialética e da oratória.
 Com estes ingredientes, o modelo e o governo avançavam.
 
APROXIMAÇÕES DESTE MODELO COM AÇÕES DESENVOLVIDAS NO BRASIL
 
Há, no Brasil do século XX, pelo menos três momentos de aproximação entre as técnicas da propaganda política fascista e governos/governantes destes períodos. No Estado Novo, com Getúlio Vargas, na Revolução de 64 com os governos militares e, mais recentemente, nos anos 90, indiscutivelmente associadas à imagem pública do então presidente, Fernando Collor de Melo. Se ,por um lado, GetúlioVargas criou a figura do “marmiteiro”, trabalhador que levava comida de casa para o trabalho e através desta imagem mandou cunhar milhares de broxes de lapela para distribuir em suas campanhas eleitorais, Fernando Collor de Melo pretendeu acabar com os “marajás”, apelido dado aos funcionários públicos que recebiam salários muito diferenciados da maioria dos trabalhadores do Estado de Alagoas, que governou antes de ser candidato a Presidente da República. A exploração de símbolos abstratos e fortes, como “marmiteiros” e “marajás” surgem na esteira de criações das imagens do fascismo, como se fossem os camisas pretas a serviço de Musssolini para espancar, inspirar ódio pelo diferencial que representavam.
 
Numa autocrítica que publicou na revista Manchete, nos anos 60,  o jornalista Lourival Fontes, que foi o executor das ações de propaganda política no governo de Getulio Vargas nos anos 30, afirmou que  “os erros e defeitos veniais de Getulio se esfumam no tempo, e só aparecem, num balanço seguro, as perspectivas, as obras e as realizações. Previa e produzia, adiantava-se ao tempo, antecipava-se como um precursor às correntes cruzadas so mundo. Os marcos do seu destino são monumentos que durarão. Só queria o Brasil maior e melhor” (MANCHETE, 21/1/1967).
 
Fontes foi um precursor do moderno marketing político no Brasil. E provavelmente um dos primeiros profissionais a influir de forma tão grande num governo. Ou como se lembram alguns dos seus colegas, “ o Lourival Fontes trouxe aquela filosofia de propaganda do Mussolini. Ele foi a Itália numa delegação de futebol, foi recebido por Mussolini e andou estudando tudo aquilo. Voltou de lá apaixonado pelo regime fascista, principalmente em relação às propagandas. Quando veio o golpe do Estado Novo, um golpe de características fascistas, ele se entendeu com Getúlio  e resolveu então criar  o Departamento de  Propaganda e Difusão Cultural (DPDC) e nessa altura dos acontecimentos ele criou também a Hora do Brasil.” (PALMEIRA, 1985, acervo sonoro)
 
O sergipano de Riachão das Dantas, Lourival Fontes “nasceu a 20 de julho de 1899 e aos quinze anos já colaborava com o Jornal do Povo de Aracaju e no Diário da Manhã.”(SOUZA, 1990, pg. 117). Depois disso mudou-se para Salvador, cursou até o terceiro ano do curso de Direito, tendo apoiado a eleição de Getulio Vargas em 1929/1930. Mais adiante em 1931,  “fundou a revista de tendência fascista Hierarquia, ele que tinha grande admiração por Benito Mussolini, sendo correspondido pelo Duce que chegou a escrever na revista que  no Brasil somente três pessoas conheciam muito bem o fascismo, sendo uma delas, Lourival Fontes.” (SOUZA, 1990, pg. 118).
 
Posteriormente mudou-se para o Rio de Janeiro , onde no governo Pedro Ernesto, ocupou vários cargos públicos : “ foi oficial de gabinete e secretário do prefeito, procurador dos feitos da Fazenda Municipal, diretor do departamento de turismo ( setor encarregado  de promoções esportivas como a corrida internacional de automóveis, a corrida hípica internacional,entre outras), diretor das Matas e Jardins, do Montepio Municipal, Secretário Municipal de Finanças e membro da Comissão de Orçamento da Prefeitura. Foi candidato derrotado à Assembléia Nacional Constituinte.” (SOUZA, 1990, pg.118/119).
 
Se, num primeiro momento, a criação de um órgão público que controlasse as verbas publicitárias  para jornais, revistas, emissoras de rádio, cinema e eventos, parecesse desnecessário, é certo que do ponto de vista ideológico, esta bem montada arquitetura no campo comunicacional, fez com que Getulio Vargas tivesse ampla base popular para manter-se no poder ,em dois momentos, por quase 15 anos e se transformasse no mais citado e no mais referenciado presidente da república do Brasil, até os  dias presentes .
 
Outras ações, inspiradas na propaganda fascista, fizeram de Getúlio Vargas um expoente na comunicação. Sua presença constante em shows de teatro e rádio, seu sucesso como objeto de canções populares e carnavalescas. E mais do que isso, a idéia de colocar, como no regime fascista, uma foto do presidente em cada repartição pública,  foram contribuições que Lourival Fontes aprendeu  -- e pôs em prática – a partir de sua estada na Itália. Para Karla Amaral, “Getulio foi um criador de ilusões, que soube usar técnicas de teatro e o populismo para governar o Brasil com apoio das ações de comunicação” . (AMARAL, 2001, pg,137).

Em processos eleitorais para outros cargos públicos, ações de propaganda e frases de campanha, soam como ações de propaganda fascista. A saber : a estrela de xerife utilizada pelo candidato ao Senado , pelo PFL, Romeu Tuma, é um dos adereços importantes para revelar que a ordem deve ser mantida a qualquer preço. Especialmente por um político que fez sua carreira junto aos órgãos de segurança pública, eu que, certa feita chegou a afirmar que “bandido bom é bandido morto” . Outro momento lapidar dos slogans fascistas foi a máxima  emitida pelo então candidato ao governo de São Paulo, Paulo Salim Maluf , em entrevista a jornalistas, declarando que os bandidos podiam “estuprar, mas não matar!”, elevando o sentimento de revolta da população para o tipo de sensibilidade e compromisso que manifestava em suas campanhas.
 
O BRASIL NA MIRA DO FASCISMO
 
Benito Mussolini igualmente desenvolveu muitas ações, com o objetivo de cooptar lideranças intelectuais, de políticos e de trabalhadores no Brasil. Nos seus primeiros anos de governo, nos anos 20, sua política externa não lhe deu  muita visibilidade . Contudo, sobrevieram ações , especialmente dirigidas aos italianos emigrados nos vários Continentes, e aos seus filhos, nos anos seguintes.

Aqui no Brasil a fundação do  Instituto Ítalo Brasileiro de Alta Cultura passou a ter correspondência direta com o Instituto Colombo, de Roma, que desenvolvia política cultural de cooptação de intelectuais, jornalistas, distribuição de livros e financiamento de viagens de intercâmbio cultural.
 
Nos anos 30, com a instituição do Ministério da Propaganda, “ao lado da potencialização dos métodos já conhecidos de conferências e distribuição de livros e publicações, o governo italiano começou a enviar grandes quantidades de artigos, fotos e material de propaganda para serem distribuídos para um bom número de jornais em todo o Brasil e há até algumas tímidas tentativas de colocar filmes italianos( como o “Camicia Nera”), em circuito comercial no Brasil.” (BERTONHA, 2000, pg.2)
 
No Brasil, a mobilização da comunidade italiana em defesa do seu país de origem durante a guerra, atingiu plenamente os seus objetivos: “O uso de italianos do Brasil na batalha pela opinião pública na guerra teve, contudo, mecanismos mais diretos. De fato, não só filmes e documentários eram exibidos para o público brasileiro nos fasci all´estero e nos Dopolavoro como seções da Società Dante Aleghieri organizaram conferências e reuniões para explicar ao público local a justiça da guerra italiana. Além disso, publicações sobre a guerra fluíram para o público brasileiro através dos órgãos italianos no país e o próprio dinheiro para pagar os subsídios aos jornais brasileiros vieram de subscrições da guerra da colônia italiana de São Paulo.” (BERTONHA, 2000, pg.3).
 
Além da distribuição maciça de material que alimentava os jornais e jornalistas brasileiros com informações sobre a propaganda fascista, “um órgão especial do MinCulPop,o escritório NUPIE, se encarregava de fazer propaganda anticomunista, enviando grandes quantidades de folhetos a respeito para o Brasil.” (BERTONHA, 2000,pg.3. ) Há inclusive nos arquivos do Ministério da Cultura Popular, dados oficiais de que 11.785 publicações  foram mandadas para o Brasil, enquanto quantidades similares eram enviadas a todos os países da  América Latina.
 
No campo do rádio, foram dedicados esforços especiais para “ programas como a Hora Italiana, inclusive com amplo fornecimento de discos e outros materiais vindos direto da Itália para a rádio Inconfidência de Belo Horizonte, em 1937 ; na Rádio Gaúcha de Poprto Alegre em 1938 e na Rádio Cultura de São Paulo. Na mesma época, havia um  outro programa italiano na rádio PRA-5, de São Paulo, com o sugestivo titulo de Littorio enquanto no Rio de Janeiro, capital da República, há informes de uma Hora Italiana na Rádio Vera Cruz, de noticiário italiano sendo veiculado pela Rádio Club do Brasil e de retransmissão dos discursos do Duce pela Rádio Tupy ainda em 1939.” (BERTONHA,2000,pg 5).
 
Contudo, o esquema de propaganda fascista no Brasil não se limitava a mídia de massa. “O esquema de propaganda do fascismo usava também expedientes mais clássicos como exposições e pomposas visitas aeronavais, utilizadas pelo regime  para alcançar o público brasileiro. Em relação às exposições, poderíamos nos referir, por exemplo, à participação italiana na Exposição do estado Novo em 1939 ou à grande mostra comemorativa dos cinqüenta anos da imigração italiana em São Paulo, em 1937, onde as maquetes sobre a conquista da Abissínia e ilustrações sobre as grandes obras fascistas conviviam com tanques e tratores FIAT e que recebeu até uma mensagem especial do Conde Ciano, direto de Roma. “ (BERTONHA,2000, pg.6)
 
Deve-se registrar igualmente que a propaganda cultural foi intensificada, com a cooptação de intelectuais e jornalistas  para a concessão de honrarias, a troca de experiências entre professores universitários e a promoção de cursos de música, arte e idioma, como instrumentos de aproximação ,cooptação de quadros e difusão da propaganda fascista no Brasil.
 
Com a chegada da II Guerra Mundial, entre 1940-45, a propaganda italiana aliou-se ao nazismo alemão e manteve no Brasil suas estratégias de difusão de documentos, informações, fotos, programas de rádio e filmes, enquanto os aliados Estados Unidos, França  e Inglaterra,  cuidavam das ações de contrapropaganda. Conm isso, aumentaram as dificuldades da presença das ações do fascismo italiano entre nós, a ponto de, em um relatório redigido em 1936, onde se analisavam os esforços da propaganda italiana no Brasil, dizia-se que  “ dos 224 artigos e 2235 fotografias enviadas naquele período, só 8 artigos e 35 fotos foram publicadas. Um sinal claro das dificuldades da propaganda italiana no Brasil.”
 
Deu-se em seguida um grande declínio das ações de propaganda, por conta da falta de recursos, bem como da falta de percepção do governo italiano de que o Brasil era taticamente um país importante para estas ações. As negativas de setores da imprensa brasileira serviram para alicerçar uma certa independência em relação aos esforços feitos pelo governo italiano naquele momento.
 
O FIM DO VOTO LIVRE
 
Após  Getúlio Vargas, o Brasil viveu particularmente mais dois grandes momentos de dificuldades de expressão política. Uma ditadura militar, que durou 23 anos e um novo período de conquistas democráticas, sepultado por um impeachment. Entre 1964 a 1986, os generais presidentes que se sucederam no país, desfiguraram os procedimentos de livre arbítrio, fecharam o congresso nacional e conduziram políticas publicas à revelia da sociedade. O slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”, estimulado pela Secretaria de Comunicação do Governo Federal, à época do general presidente Emílio Garrastazu Médici, foi talvez a síntese dos ensinamentos advindos do fascismo. Na mesma dimensão em que Mussolini fechava as portas da Itália para  o consumo de produtos estrangeiros e estimulava  a auto-estima e o isolamento do seu povo diante da Europa e demais Continentes, o Brasil do General Médici, com frases de efeito, pretendia silenciar as oposições que cresciam aos desmandos do regime militar, sugerindo-lhes que, se descontentes, deixassem o país para os que desejam a ordem e o progresso.

E depois de duas décadas sem votar, quando aos brasileiros foi dado o direito de escolher um novo Presidente da República, a escolha recaiu sobre a figura de um jovem ex-jornalista e empresário bem sucedido nos campos da indústria da comunicação e do agronegócio. Fernando Collor de Melo, o jovem presidente eleito sob sofismas, que chamava os adversários para a briga, que lhes dava “bananas” em gestos feitos com os punhos cerrados e que repetia bordões aos modos dos fascistas, foi eleito por votação direta de forma surpreendente, mas ficou no poder pouco tempo, submetido a um “impeachment” que mobilizou a sociedade brasileira que lhe concedeu o voto.
 
No entender de Ricardo Costa, “ a campanha de Fernando Collor partiu de uma pesquisa do Instituto Vox Populi (1988) que apontava como atributos essenciais da preferência popular de um candidato a presidência : ser jovem 53,3% e combater marajás 64,2%. Desta forma, Collor subiu ao palco político com uma gama de traços visuais de juventude, de coragem e dinamismo, o que o identificava com os anseios do povo. O candidato Collor tinha o poder de preencher estas lacunas que o tempo se encarregou de criar : corrupção,impunidade, entre outros.” (COSTA, 2001, pg.152).
 
CONCLUSÕES
 
A história da Propaganda Política no mundo confunde-se, em vários momentos, com os ditadores que a praticaram.A construção deste diálogo de aprendizados entre ações políticas no Brasil e o fascismo, a propósito da realização do Colóquio Brasil Itália, pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, enseja aos pesquisadores deste campo, um olhar atento sobre as influências mútuas neste diálogo.
 
Inspirado nas práticas de Campos Salles e inspirador de ações que influíram no contexto brasileiro do início do século XX, Benito Mussolini faz das ações autoritárias, exemplos e seguidores. O Brasil dos integralistas, de Getulio Vargas e Lourival Fontes, o executor das políticas fascistas no Brasil, dos governos militares e, em especial, do governo Médici e, mais recentemente, do governo Collor, são talvez cópias insensatas das ações produzidas pela propaganda fascista na Itália dos anos 20 e 30.
 
Entre os legados históricos da propaganda política contemporânea, parece-nos que os exemplos das várias formas de  autoritarismo, sobrevivem com maior realce perante a história, do que propriamente as ações democráticas mais contagiantes e generosas. Trata-se de um capítulo importante a ser destacado, pesquisado e difundido, especialmente para que novas gerações de pesquisadores e políticos, a partir destes exemplos e das ações dele decorrentes,  possam alimentar convicções democráticas mais duradouras, negando evidentemente o que de bem sucedido houve num período em  que a história – e os cidadãos destes tempos – gostariam de sepultar e esquecer.
 
BIBLIOGRAFIA
 
AMARAL, Karla. “Getulio Vargas, o criador de ilusões”, dissertação de mestrado defendida na UMESP, 2000.
BERTONHA, João Fábio. “Divulgando o Duce e o fascismo em terra brasileira, a propaganda italiana no Brasil,1922-1943”. Revista de História Regional/ UNICAMP,  volume 5, nº 2, 2000, páginas 1 a 25.
CESAR, Afonso. “Vargas, 40 anos depois”. Editora Destaque, Rio de Janeiro, 1995.
COSTA, Ricardo. “Fernando Affonso Collor de Mello, a projeção de um ilustre desconhecido”, dissertação de mestrado defendida na UMESP, 2002.
ENSAIOS DE OPINIÃO, nº 22, volume 4, Editora Inúbia, Rio de Janeiro, 1977.
MATTOS, Heloiza H.G. “Modos de olhar o discurso autoritário no Brasil (1969-1974): o noticiário de primeira página na imprensa e a propaganda governamental na televisão”, tese de doutorado, ECA/USP, 1989.
PARENTE, Josênio Camelo. “ANAUÊ, os camisas verdes no poder”. UFC Editores, Fortaleza, 1999.
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QUINTERO, PIZAROSO. “La história de la propaganda política”, Lisboa, 1990, pg. 322.
SOUZA, José Inácio de Melo. “A ação e o imaginário de uma ditadura : controle, coerção e propaganda política nos meios de comunicação durante o Estado Novo”, dissertação de mestrado, defendida na ECA/USP, 1990.
WOLF, Mauro. “Teorias da Comunicação”. Lisboa, Presença, 1987.
 
SOBRE O AUTOR:
 
Adolpho Carlos Françoso Queiroz é Doutor em Ciências da Comunicação, pela Universidade Metodista de São Paulo, onde participa como docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e dirige o projeto de pesquisa sobre propaganda política no Brasil. É formado em publicidade e propaganda pela Universidade Metodista de Piracicaba. Tem o título de mestre em comunicação pela Universidade de Brasília. Foi presidente da INTERCOM, Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 1993/94.Atualmente é editor da revista Comunicação e Sociedade ,da UMESP e membro do Conselho Curador da INTERCOM.
 
 

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