Adolpho Queiroz
A abertura de mais uma edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, no dia 28 de agosto, acontecerá com discrição, profissionalismo e, sobretudo, respeito por sua trajetória no cenário das artes e da cultura do país e fora dele.
Mas é bom relembrar um pouco as suas origens. Ele nasceu contestatório em duas vertentes. Numa intransigente, queria ser porta voz da geração que enfrentou a ditadura militar contra o arbítrio, a censura, a exclusão e o pensamento único que se pretendia construir no período. Noutra, contra a mesmice de outras atividades culturais da cidade, onde personalidades das artes à época eram, ao mesmo tempo, organizadoras, selecionadoras, julgadoras e premiadas pelos salões mais antigos da cidade, num desrespeito ao dinheiro público e à inteligência dos que tinham um mínimo de bom senso e juízo.
O tempo passou, vieram governos e desgovernos e a cidade que arrastava o “R” , tomava só cachaça, gostava de cururu e cuscuz, adorava o XV, sofisticou-se um pouco mais. E arrumou admiradores na Ásia, Europa, Américas Latina e do Norte, que passaram a soletrar o seu nome com outros sotaques “Pirracikabá” francês, ”Peiracicaba” inglês; para não chegar aos intraduzíveis idiomas e sotaques dos aiatolás,mandarins e hindus.
Certamente poucos artistas dos outros continentes chegaram até as barrancas do Rio Piracicaba para uma cerveja com peixe frito e por do sol admiráveis. Mas no imaginário de todos os traços, a confluência para um bom riso, uma estocada num adversário político, uma crítica aos costumes, passou a ter como pano de fundo a nossa cidade. E do humor que “vem de lá”, se ri tanto quanto ao que vem daqui. E, mais do que isso, se faz pensar.
Ficamos horas e andamos quilômetros em volta das mesas do Hotel Bristol que acolheu o júri de pré-seleção com a penosa tarefa de dizer não a muitos autores e trabalhos, cerca de 1800 e a eleger os 280 melhores. Percebendo nuances,sutilezas e requintes da linguagem do humor . Deplorando a mesmice, o obsceno, o lugar comum. Em votações internas e democráticas, quando havia dúvida, a maioria vencia, com o braço erguido. Horas de conversa, encantamento e espanto.
Espanto porque quiseram encabrestar o salão e porque o poder público local, que tem sido o grande anfitrião desta parafernália de ideias, resolveu arejar o feudo criado, desestimular o compadrismo e voltar ao sentido original do salão: sem donos, sem auto premiações, sem passadismo.
O que se quer – espero, sinceramente! – daqui por diante, é a renovação constante: na organização, nas seleções, nas premiações, nas novas formas de perceber o humor, no debate sobre o seu significado para a cidade e para os outros países que a ela se dirigem neste começo de século XXI, em busca de difusão de novos traços, textos e cores.
Escondida na floresta digital, tal qual estrela de primeira grandeza no campo fecundo do debate político, a cidade que emprestou dos indígenas o seu nome, “lugar onde o peixe para”, agora terá que se curvar ao novo dístico: “lugar onde o humor não para”. Porque ninguém tem o direito de segurá-lo e virar o seu dono !
Adolpho Queiroz é jornalista, publicitário, professor universitário, pós doutor em comunicação e um dos fundadores dos salões internacional e universitário de humor de Piracicaba.
|
|
|